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EN SAN PABLO... DOS BOLIVIANOS .. SIENDO COMERCIALIZADOS.

Quanto custa uma pessoa?
Por: Gi Teodoro / Nayara Konno - São Paulo 06/02/14 - atualizado em 15/02/14 - atualizado em 17/02/14

*O Bolívia Cultural manterá o debate sem apontar nomes, cabendo as autoridades envolvidas no caso em questão o registro nominal das pessoas sejam denominadas vítimas ou culpados.O caso segue em investigação.


Na cidade de São Paulo chegam dezenas de imigrantes semanalmente, pessoas que saem de suas casas um dia convencidos que o Brasil tem uma oportunidade melhor. O que muitos não sabem é que ao aceitar a oferta serão levados sem garantias de segurança, pagamento, liberdade ou volta pra casa, não existe retorno quando te tratam como mercadoria. Foi o que viveram os amigos ‘F.’ de 18 anos e ‘A.’ de 21, ofertados em troca de dinheiro, na rua, a luz do dia na última segunda-feira (10/02) no bairro Brás.

Jovens bolivianos (18 e 21 anos) aguardam na casa do migrante sua viagem de retorno a Bolívia marcada para 15/02 pelo Consulado da Bolívia em SP. Em entrevista exclusiva ao Bolívia Cultural eles alertam sobre os riscos de falsas promessa de emprego. Foto: BC



Um acontecimento agora explorado pela mídia brasileira por ser chocante, uma espécie de lenda infame que se ouve falar que existe mas nunca parece estar acontecendo perto de nós ou com que conhecemos, é como muitos conhecem o trafico de seres humanos. 

A questão de enxergar que esses acontecimentos estão próximos de nós (sendo que segundo dados do Centro de Estudos Migratórios 99% dos aliciadores é da mesmas nacionalidade da vitima) é também entender que essa situação tem muitos mitos. Afinal, o que é comércio de seres humanos hoje?

Para o dono de oficina ‘S.’ o fato foi que os rapazes recém chegados em sua oficina não queriam mais ficar ali, o que para ele era um prejuízo já que afirmava ter investido 1mil reais para trazer cada um da Bolívia. Quem iria pagar os 2mil reais? ‘S.’ resolveu colocar ‘F.’ e ‘A.’ no carro e se dirigir a Rua Coimbra onde perguntou a quem passava se precisavam de mão de obra, a oferta era: pagando a dívida de 1mil reais era possível levar um dos rapazes para trabalhar com você. Se pagasse 2mil, levava os dois.

Nem quando o povo o acusou de tráfico humano ele se reconheceu como traficante. Nem quando quiseram linchá-lo ou chamaram a polícia, para ‘S.’ ele negociava a dívida nunca dois humanos. 

Foi isso que ele disse aos cabos da polícia que atenderam a denúncia popular, que eram negócios: ele investiu para que eles chegassem aqui, não ia ficar sem o dinheiro, não estava vendendo as pessoas, só a dívida. E quem pagasse o valor, levava.

A fúria de quem presenciou a cena não era só por saber que existem situações do tipo, vinha do choque de que essa realidade lamentável existe ali escancarada, um imigrante negociando outros dois. E o acusado nem percebia ou reconhecia: uma pessoa ofertando outras duas pessoas por dinheiro. Para os bolivianos a indignação de ver um irmão de nação ofertando outro.

Os riscos e perigos: os bolivianos só querem voltar, chega de falsas promessas de trabalho 

No mercado ‘El Campesino’em Sucre, Bolívia, o jovem ‘A.’ de 21 anos parou para comer alguma coisa. Foi ali onde uma aliciadora o abordou, falou de um emprego no Brasil onde ele ganharia 500 dólares por mês. Isso trouxe uma dúvida cruel já que no seu país indica que os jovens representam 43% do total de desempregados da America Latina (estudo da Organização Internacional do Trabalho - OIT).

Ganhando cerca de 80 pesos bolivianos por dia (equivalendo a uma média de 12 dólares ou 22 reais), com uma jovem mulher grávida de 2 meses ele ficou tentado, era uma oportunidade. Que ele contou para ‘F.’seu amigo de 18 anos e juntos decidiram aceitar a proposta. A aliciadora já tinha avisado que deviam partir logo ou perdiam então eles saíram sem se despedir dos pais, um deu tchau para a irmã de 16 anos e se foram, os pais só souberam da viajem depois da partida.

Daí em frente o relato é confuso, o trajeto difícil que não chegou a nenhum lugar. Sem dinheiro para ir, sem dinheiro para comer, ou passagens garantidas os dois ficaram nas mãos do ‘coiote’ que iria trazê-los. As duas rotas mais comuns da Bolívia ao Brasil são via Corumbá ou Paraguai, essa segunda foi o caso deles. 

De sua cidade percorreram 502,0 km até Santa Cruz ainda na Bolívia, seguindo de lá até a fronteira paraguaia. Foram três dias sem comer, porque o coiote não recebeu o dinheiro pra isso, então os três ficaram nessa situação. Sem desistir do sonhado emprego no Brasil os rapazes se viraram, conseguiram trocar a limpeza de um bar por dois pasteis com duas porções de mandioca.

Era para matar a fome de três dias de duas pessoas famintas, mas chegando a rodoviária de onde seguiriam viajem encontraram outros nove bolivianos na mesma situação, sem dinheiro e com fome, com quem dividiram tudo que haviam conseguido os dois pasteis e duas porções de mandioca. De lá, partiram de ônibus até a fronteira do Brasil, e finalmente seguiram até São Paulo. 

Levados ao interior de São Paulo, região metropolitana da capital, se depararam com uma oficina de costura onde deviam trabalhar com mais 20 bolivianos. O pagamento seria de 1.600 reais, morando e trabalhando nessa mesma casa com os outros funcionários. Chegaram na quarta-feira e já no final da mesma semana foi oferecida uma festa de boas vindas.

Após a bebedeira na festa ‘A.’ foi acusado de furtar um celular, que estava com ele e foi devolvido, ele afirma não lembrar de ter pego o aparelho. Com isso o clima na oficina mudou, chegam ameaças e um dos amigos parte dali, sem nada. A situação daquele que fica é instável e também decide ir embora, o dono da oficina sabe que não podem continuar ali com os outros 20 e as ameaças.

De carro ele leva os dois, tendo encontrado o que saiu primeiro na rua, sem saber para onde ir. O dono da oficina fala que eles tem uma dívida com ele, cada um deve mil reais de transporte da Bolívia até ali. Até então eles não tinham idéia de onde iam ou qual o jeito que o oficineiro encontrou para ter seu dinheiro, nenhum dos jovens conhecia o centro de São Paulo, onde seriam ofertados.

Não entendiam que seriam vendidos para pagar a suposta dívida e só perceberam quando foi discutido seu preço na rua. Sentiram a realidade daquilo quando a população intercedeu, furiosa. E não souberam porque foram revistados pela polícia enquanto o vendedor não passou por isso. Talvez seja por eles não falam português enquanto o outro se defendia fluentemente. 

O caso foi encaminhado ao 8º DP - Brás/Belém e os rapazes foram levados de camburão policial enquanto o dono da oficina, senhor empresário que afirmava não ter nada errado ali, foi no próprio carro.

Não existiu queixa formal, ninguém quis assinar o Boletim de Ocorrência apesar de tudo. Os populares foram travados pelo receio e os dois bolivianos também resolveram não assinar. Afinal o que dizer, quem apontar? Já tinham sido ameaçados no Brasil, estão em local desconhecido. Sem BO todos foram liberados.

O senhor ‘S’ saiu lamentando seu investimento perdido, o coiote que os trouxe dizendo a todos que os rapazes não eram santos. Até a senhora que, de uma ida a padaria se viu envolvida no tumulto e não abandonou os jovens na delegacia, ficou com receio. ‘A.’ e ‘F.’ não foram presos por serem tratados de mercadoria, mas estavam na rua sem ter para onde ir. A senhora não podia levá-los com ela, a casa onde vive não é dela e em um telefonema a permissão foi negada.

Para quem quiser questionar os detalhes e informações do acontecido, a equipe Bolívia Cultural esteve presente. Os 2 foram acompanhados de volta a Rua Coimbra onde foi feito contato com um comunicador boliviano, radicado na região, que os acolheu. Por volta das 23h chegaram a essa casa, para no dia seguinte, receberem abrigo na Casa do Migrante (após solicitação de acolhida) onde podem ficar seguros até sua partida. 

Eles não querem ficar aqui onde as promessas de uma vida melhor podem ser uma armadilha. O Consulado da Bolívia em São Paulo trabalha com empresas de transporte que cedem lugar aos imigrantes nesta situação para que possam voltar a suas casas. Agora ‘A.’ e ‘F.’ contam o tempo até retornar a Sucre. Deixando a mensagem de alerta a todos os que pensam numa vida financeira melhor e não crêem no risco. Os perigos são reais. Nos casos de bolivianos no Brasil, nos casos de brasileiros na Europa e assim por diante. Não deixe um sonho se tornar macabro e terminar mal, não desacredite que o risco está perto e denuncie. O ser humano, sua vida  e sonhos, jamais serão mercadorias.

NOTA do Bolívia Cultural & Planeta América Latina

Frente as diversas versões do episódio que se espalham na mídia brasileira, divulgamos por meio de nota que os envolvidos no decorrer e acompanhamento estão listados abaixo, junto ao resumo de datas e horários. 

Havendo sido feito por equipe Bolívia Cultural todo o fato e apurado junto aos envolvidos, aqui se esclarece que o veículo se encontra apto a trabalhar a pauta de forma legitima não como fonte, mas como veículo de comunicação presente em todo o desenrolar. 

O objetivo da matéria é combater o uso da tragédia social, fruto da desigualdade que se vive, como combustível para o enriquecimento daqueles que vêem o ser humano como mercadoria.

Envolvidos: 

1-    Populares bolivianos que denunciaram via telefone o acontecimento
em tempo real a redação do Bolívia Cultural.

2-    As duas vítimas (‘A.’ e ‘F.’)

3-    Dono da Oficina  (‘S.’)

4-    Sobrinho do dono da oficina (coiote)

5-    Polícia do 8ºDP

6-    Senhora de 50 anos que acompanhou em todo momento os 2 jovens

7-    Radialista boliviano que acolheu os jovens por uma noite (2ª-feira)

8-    Casa do Migrante – Pastoral do Imigrante (terça-feira até sábado)  

9-    Consulado da Bolívia – providências para partida dos 2 jovens. Contato 
a empresa La Preferida
10-    La Preferida - empresa de transporte terrestre que cedeu as passagens
ao Consulado.

*o Bolívia Cultural manterá o debate sem apontar nomes, cabendo as autoridades envolvidas no caso em questão o registro nominal das pessoas sejam denominadas vítimas ou culpados.O caso segue em investigação.

Fonte: 
Bolívia Cultural

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